Relacionamento conjugal vs Conflito conjugal – Como fazer prevalecer o casamento?

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(Photo: RawPixel)

O título do presente artigo, por si demonstra uma certa contradição pelas seguintes razões:

Quando falamos do relacionamento conjugal, surgem na nossa mente pensamentos de amor, alegria, paz na alma e outros estados emocionais positivos. Quando nos referimos a conflitos conjugais passamos a conviver com pensamentos e emoções negativas, que se traduzem na tristeza, sofrimento, falta de amor e voltados ao desamparo.

A verdade é que, por mais absurdo que pareça, são realidades que normalmente convivem juntas. A sua existência só tem razão de ser dentro desse contexto e, só faz sentido numa convivência mútua onde cada uma das partes se “confronta” com a forma de ser da outra.

Essa maneira de ser,  expressa-se na forma de “entendimento e do amor”, ou numa manifestação oposta  à primeira, que se caracteriza em “desacordo e ódio”.

Com o que foi acima dito pode concluir-se que os conflitos conjugais são inevitáveis, pelo que numa relação conjugal, sonhar com um entendimento contínuo é uma pura utopia. Segundo Poujol & Poujol (2004) “É impossível e tampouco desejável que dois seres pensem, sintam ou hajam continuamente de forma idêntica”.

É importante reconhecermos  a existência dos nossos conflitos, porque “um casal não pode viver sem passar por conflitos”, afirmam Poujol & Poujol (2004). Portanto quando alguém das suas relações afirma que nunca tem conflitos com o seu parceiro, pode ter a certeza de que alguma coisa de errado regista-se no relacionamento dos dois e, no futuro pode se transformar numa fonte de problemas.

Mais vale dormirem “divorciados” num dia, mas acordarem “casados de novo” no dia seguinte, o que significa que não se deve adiar a resolução de um conflito, porque resolvido dará lugar à felicidade e alegria, mais confiança e segurança na vida conjugal.

Os conflitos são parte integrante do relacionamento conjugal porque possuem aspectos benéficos que nos fazem crescer como casal e como família.

Os conflitos geram no casal atitudes opostas, ou seja, cada um dos cônjuges se opõe ao outro em alguns aspectos, isso significa que nos diferenciamos um do outro, o que, por outras palavras, significa que temos identidades diferentes que devemos gerí-las e procurar conhecer profundamente com quem estamos a lidar, em benefício da nossa vida em comum. Portanto, podemos concluír que os “conflitos favorecem o amadurecimento dos parceiros ”(Poujol & Poujol, 2004).

Voltando ao título deste artigo, encontramos uma pergunta que com tudo o que  até agora foi aqui dito, continua  exigindo resposta.

A pergunta é a seguinte: Como fazer prevalecer o casamento?

Para uma resposta razoável a esta pergunta, precisamos antes de reflectir nos seguintes aspectos:

O casamento não é apenas o projecto mais importante da vida, é o maior e significativo evento que um homem e uma mulher podem celebrar, bem como também pelo seu valor incontornável da necessidade de manutenção da espécie humana no mundo.

Em observação a esse fenómeno natural, o Homem convencionou, de forma organizada, a união marital por forma a deixarem a sua descedência na terra. Estas são as razões de fundo que nos obrigam a encontrar a resposta para a pergunta acima.

Ficou claro que os conflitos fazem parte da vida quotidiana de um casal por várias razões, citando algumas, nomeadamente:

  • Um conflito conjugal, do ponto de vista da qualidade de uma relação social, representa um momento da verdade quanto à verificação do estado da relação de qualquer casal;
  • Os conflitos de casal são parte integrante dos relacionamentos e, têm benefícios quando os cônjuges, nesses momentos agem com inteligência e procuram conhecer-se melhor mútuamente.

As afirmações acima, tal como o título deste artigo, parecem contraditórias no que respeita à expectativa que cada um tem sobre o casamento.  Face a isso, é imperativo que façamos uma reflexão sobre o que significa “construir o amor a dois” e manter a felicidade no lar.

Para um casal ser feliz deve ter a consciência de que a felicidade não acontece ao acaso, resulta de uma compreensão e dedicação mútua dos cônjuges para superar os desafios que muitas vezes abalam a relação a dois, os quais são variados e acontecem em todas as fases da vida conjugal.

Dos desafios frequentes na vida dos casais podemos destacar os seguintes:

  1. A convivência da paixão e a construção do amor, que é o momento em que nos apaixonamos e vivemos uma “lua de mel” que nos leva a sobrevalorizar o nosso(a) parceiro/parceira, facto que nos leva a ver nele/nela apenas a perfeição;
  2. A organização da vida a dois onde se destacam os seguintes aspectos:
  • As diferenças individuais;
  • A convivência diária;
  • A conquista da tranquilidade;
  • A conjugação dos verbos nas primeiras pessoas do singular “EU”, e do plural “NÓS”.

Nesta fase os desafios envolvem outras dimensões  importantes nas relações de casal, designadamente, a vida profissional, as pessoas fora da relação conjugal, incluíndo as famílias de cada uma das partes, amigos, experiência parental e outras.

Todos estes desafios exigem do casal, estratégias de mitigação de conflitos que normalmente aparecem, para se poder responder positivamente à questão de fundo, Como fazer prevalecer o casamento? que na verdade é o principal desafio numa relação de casal, resumido em “Não deixar morrer o amor”.

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Escrito por: Rui Mbatsana | Terapeuta sistémico de família

Bibliografia
1. Núcio, M. J. S.(2014). O meu lado da cama, Porto: Porto Editora
2. Poujol, J. & Poujol, C.(2004). O potencial Criativo do Conflito no Casamento: Como entender e administrar os conflitos do dia a dia na vida conjugal, São Paulo: Editora vida
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Rui Mbatsana

Autor Desde:  02/10/2019

Rui Mbatsana é Terapeuta Familiar, Consultor de Formação e Desenvolvimento de Recursos Humanos e Practitioner de Barras de Acesso à Consciência.

Possui uma grande experiência no sector de Educação, tendo de 1978 a 1980 trabalhado como Director Distrital de Educação. Em 1981 foi afecto ao Ministério da Educação como Inspector Nacional de Educação até 1986.

Em 1991 concluiu o nível de Licenciatura em Pedagogia e Psicologia pelo Instituto Superior Pedagógico (actual UP).

Na área de Recursos Humanos, em 1992 passou a trabalhar para as Telecomunicações de Moçambique na área de recursos humanos onde fez carreira como técnico, gestor intermédio e ao nível de Director de Recursos Humanos até 2001. No mesmo ano, passou a integrar o quadro de pessoal da Petróleos de Moçambique (Petromoc), como Director de Recursos Humanos, função que exerceu até 2010.

Rui dá também Palestras para orientar Pais na educação dos seus filhos.